top of page

Rua Vermelha - Parte I

Foto do escritor: Eva RibeiroEva Ribeiro

Era a primeira vez que ia a Amsterdão, uma viagem restrita a apenas 3 dias, mas suficiente para conhecer minimamente a cidade. Pensei em convidar um ou uma amiga para irem comigo, mas não desta vez...desta vez não podia ser. Há viagens que temos de fazer sozinhos e esta era seguramente uma delas. Cheguei já quase ao anoitecer a Amsterdão, mas depois do check in no Hotel, era imperativo percorrer as ruas e vielas da cidade. Para não me perder, o que habitualmente acontecia e nem sempre era necessariamente negativo, pedi um mapa na recepção do Hotel e não foi preciso muito para decidir para onde iria, para onde queria ir: Rua Vermelha. Aliás eu não queria admitir, mas era a razão principal que me levara a vir para Amsterdão e sobretudo por ter optado em vir sozinha. Apesar de o Outono ter ainda alguns dias, estava uma noite amena e que apenas me obrigara a cobrir o vestido que trazia com um fino casaco de malha a condizer. Sentei-me num dos restaurantes perto do canal e fiz o que sempre costumo fazer quando viajo e não conheço as tradições gastronómicas do local que visito: pedir algo típico e deixar-me contagiar (ou não) pelos sabores locais. Escolhi o Stamppot e depois a tradicional torta de maçã, acompanhados de um bom vinho tinto (pelo menos foi esse o meu pedido, mas tenho de admitir que vindo eu de uma terra de bons vinhos, é sempre difícil igualar Portugal). Fiquei ainda durante bastante tempo com o copo de vinho na mão a olhar o canal e apreciar os turistas como eu a calcorrear a calçada, ora com mapas ora com souvenirs nas mãos, a ouvir as suas conversas cruzadas e, apesar de não as entender, mesmo assim sorrir com isso. Já pouco passava da meia noite quando saí do restaurante em direcção à rua vermelha. Os primeiros passos dei-os um pouco nervosa, primeiro por sentir que a percorrer aquela rua se assemelhava quase como que a entrar num universo paralelo, num portal mágico que me aproximava mais e mais de mim e por outro por me encontrar sozinha. Mas rapidamente esta sensação se dissipou e as mulheres que se exibiam nas montras por onde ia passando travaram qualquer outro pensamento que eu pudesse ter. Eram muitas e tão apelativas todas, mas estranhamente todas chamavam por mim ou tentavam captar a minha atenção de alguma forma e o mais incrível é que conseguiam, fazendo-me abrandar o passo e ficar a olhar para elas, deliciada, e inocentemente tentar desvendar o que tinham para me oferecer e deixar que o desejo, o instinto decidissem por mim. Prometera a mim mesma que quando pisasse o chão daquela rua seria neste formato: só, descomprometido e perfeitamente disponível para o que o corpo me pedisse.

- Get in lady. – Ouço uma voz de veludo chamar por mim, vinda de uma montra vazia. Talvez a primeira que tenha encontrado assim, por isso ia continuar a caminhar se aquele serpentear melodioso não me tivesse atingido como um raio.

Entrei por uma porta e depois de alguns passos desemboquei numa sala, com sofás espalhados numa meia lua perfeita e virados para um espaço vazio, ainda escuro, à frente. Sentei-me quase na outra extremidade e aguardei, ao som de uma qualquer música lânguida q.b. e que me aguçou ainda mais os sentidos, o que aquele espaço ainda escurecido me reservaria. Pouco depois entra um casal que ocupa os dois sofás da ponta e que cordialmente me cumprimenta, deixando-me um pouco perplexa pela naturalidade do gesto que também retribuí, embora jamais me ocorresse ter semelhante iniciativa. De seguida, entra mais um homem no espaço. Pergunto a mim mesma se entrarão mais pessoas, mas rapidamente a minha atenção volta-se para as luzes que tenuemente começam a iluminar uma poltrona vermelha colocada em frente a nós. Pouco depois aparece uma mulher mestiça, de cabelos revoltos, ligeiramente curtos e que deambula em seu redor, pavoneando-se em lingerie…um corpete branco e umas reduzidas cuecas da mesma cor deixavam sobressair umas formas bem redondas num corpo elegante. O meu corpo dera sinal…o sinal que precisava para ter a certeza que estava no sítio certo. Seguira-se um strip tease de cortar a respiração que já quase não me deixava ter posição dado o grau de excitação que começara a sentir. Olhei para o lado e enquanto percebi que o homem que entrara por último continuava fixado na mulher à sua frente, por seu lado o casal estava num registo completamente diferente. A mulher, que só agora reparei ter uma tez clara e um cabelo loiro e escorrido, estava comodamente sentada no sofá, de pernas bem abertas, enquanto o homem com que entrara, mergulhara no meio delas e lhe lambia a vagina. Do sofá onde estava conseguia ver os movimentos daquela língua nos lábios dela e percebia também a excitação que isso lhe provocava. E foi nesse momento que o meu controle desapareceu. Comecei a tocar-me, apesar de ser ainda por cima do tecido do vestido, ignorando por completo o homem que estava ao meu lado e que tal como eu, estava absolutamente centrado na mestiça que se deambulava à sua frente e em quem o meu olhar também repousava. E sem me conseguir conter, levanto-me lentamente e estreito a distância que me separa daquela mulher. Sem reservas sento-me na dita poltrona vermelha e aguardo pelo que se segue…

bottom of page