A PRISÃO - PARTE I
- Eva Ribeiro
- 5 de abr. de 2021
- 4 min de leitura

Já há muito que me tinha habituado a estar sozinha naquela cela, na ala 4. Uma prisão só de mulheres e para punir mulheres. Na ala onde estava, encontravam-se as mulheres com penas leves derivadas de pequenos delitos, mas nas outras alas, a situação era diferente e bem mais pesada em termos de ambiente. Ali respirava-se, não o ar que eu precisava de respirar, nem quando precisava, mas quando me era possível. As idas ao exterior eram desencontradas das restantes alas, precisamente por serem não só muitas mulheres, mas também pela perigosidade em que poderíamos estar expostas se estivéssemos todas juntas no mesmo espaço. A cantina era o único local onde apenas havia dois turnos, sendo que as duas primeiras alas iam no primeiro e só depois iam as duas restantes.
A pena era de 1 ano, por um pequeno furto e que me fez ir ali parar. Inicialmente tive hipótese de recorrer, mas deixei passar o prazo, mesmo de poder recorrer a trabalho comunitário e eis que num belo dia, me pedem para me apresentar na esquadra da polícia mais perto da minha casa. Ainda fiz uma mala com roupa e alguns adereços pessoais, mas ciente de que parte do que levava poderia nem sequer conseguir entrar, no entanto levava comigo.
Telefonei-te a dizer para onde ia.
- Levo comigo a pulseira e o meu cobertor. – Ficaste em silêncio…certamente com uma vontade de gritar, de explodir, de chorar, mas eu sabia que isso não aconteceria. – Um ano passa rápido e eu volto. Esperas por mim? – Perguntei com as lágrimas a escorrer pelo meu rosto.
- Fodasss que pergunta é essa? Tu vais para a prisão, eu vou ficar noutra……sem ti……. – E nesse momento senti a tua respiração mais acelerada, assim como os teus batimentos cardíacos.
- Visita-me…não sei quando poderei voltar a falar contigo, pois vou ficar sem telefone. Aliás vou sair de casa sem ele. Não me largues. – Pedi-te e tentei conter o choro, mas ouvi do outro lado um valente estrondo e percebi que tinhas certamente dado um murro em algo…e outro seguiu-se.
- Não és culpada e…fodasss…….porque que é que tudo tem de ser tão difícil? – Perguntas.
- É um teste ao nosso amor. – Disse com a maior calma do mundo. – E agora vou, amor, vou com uns jeans, uma t-shirt e uma camisola desportiva vestida. Acho que passo despercebida…
- Tu despercebida? Eu vou ver-te e estarei perto…vou escrever-te todas as semanas…fica tranquila.
- Amo-te. - Digo-te.
- Amo-te. – Dizes e desligamos, cientes de ter ficado os dois uns minutos e tentar controlar a tempestade interior que sentíamos, a sensação de impotência e tudo o que com isso vem associado.
Quando entrei fiquei logo naquela cela e que para meu espanto estava vazia. Um beliche, um espelho, um lavatório e um pequeno armário. Assumi que, pouco tempo depois, pudesse ficar com uma companheira de quarto, mas isso ainda não tinha acontecido até ao momento.
Apesar de ser uma prisão feminina e eu adorar dormir apenas em cuecas, ali sempre tive o cuidado de dormir com calcões e t-shirt, agarrada aquele nosso objecto e a um livro e o sono vinha.
Mas naquela manhã, chegou uma nova reclusa e foi colocada precisamente na minha cela. Apresentei-me, pouco depois de terem fechado a cela e ela fez o mesmo.
- Não sou muito faladora e gosto pouco que invadam o meu espaço, a menos que eu peça. Se me ouvires gemer, sim, estarei a masturbar-me, pois faço isso todos os dias. Respeito o teu espaço, se respeitares o meu. Sou lésbica, por isso se olhar para ti quando te despes, não estranhes. Alguma dúvida? – Perguntou-me, mas sem esperar resposta, mas para sua surpresa eu tinha uma.
- Obrigada pela informação. Eu também gosto que respeitem o meu espaço, sou um pouco mais permissiva se precisarem de mim e sim, mesmo com essa dureza toda de carácter que demonstras, estarei aqui se quiseres. Não te chatearei, aliás nem notarás que estou aqui, a não ser quando me dispo ou quando me toco…sim, também o faço e, por vezes, várias vezes ao dia. Sou bissexual, mas muito bem casada com um homem e que é o amor da minha vida. Sou muito sensível, embora raramente te vá demonstrar isso. Adoro ler e escrever e esse será o meu mundo nestas quatro paredes. E acho que a partir de agora deixo-te no teu mundo e vou voltar ao meu… - Disse e subi para a minha cama, enquanto a via arrumar as poucas coisas que trazia e depois olhou para cima, mas como me viu a ler, sentou-se na cama de baixo muito quieta.
Desci algum tempo depois, pois a hora de ir para o recinto aproximava-se.
A cela abriu-se e eu peguei na minha toalha de banho e saí sem nada dizer. Tomei um duche rápido e voltei à cela ainda com a toalha enrolada no meu corpo e com o cabelo ainda molhado. Voltei-me de costas para ela, pois tinha de procurar uma farda limpa para vestir e quando encontrei, retirei, sem qualquer pudor a toalha do meu corpo e fui vestindo…cuecas, soutien, as meias e só depois, vesti a farda e calcei as sapatilhas. Pendurei a toalha que trazia no corpo e penteei o meu cabelo, depois de ter colocado um simples creme no rosto.
Quando me virei, percebi que ela tinha baixado as calças e as cuecas e se tocava, enquanto me observava. Ignorei, apesar de aquela imagem me ter excitado…e subi para a minha cama enquanto aguardava que abrissem de novo a cela para irmos para o recinto.
- Hmmm… - Os gemidos dela ecoavam pela cela e eu estava a tentar conter-me o mais que podia. E foi quando me lembrei dos auscultadores e do pequeno mp3 que te tinha pedido para me levares.
E para além da música, tinhas gravado poemas, cartas de amor, palavras soltas e revoltas…era uma conversa comigo, sem estares ali…e entretanto, tinha chegado a hora de irmos até ao recinto.
Quando desci ela já estava composta e saiu da cela pouco depois de mim. Não sabia para onde ia, mas seguiu-me, apesar de se distanciar o suficiente. Sabia que me tirava as medidas todas, apesar de eu estar de costas e eu, eu sorria perversamente, afinal há coisas que nunca mudam.
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