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VOYEUR VS EXIBICIONISTA - PARTE I

Foto do escritor: Eva RibeiroEva Ribeiro

Tentei começar o dia da forma mais convencional, mas tu que me conheces, sabes que não é possível.


Por isso, limitei-me a sair de casa, com um singelo vestido e um casaco de peles, meias de liga e saltos altos....e fui até ao café onde já sou cliente habitual. Sentei-me na mesa do fundo, de costas para a porta e preparada para saborear o pequeno almoço tardio enquanto folheava uma nova aquisição literária.

- Café forte e com leite morno... - Peço e continuo. - E meia torrada. - Hoje não tenho muita fome.

- Sim, senhora.

O livro interessa-me, mas é o perfume do homem que está atrás de mim que me distrai da minha leitura. Reconheço-o, mas não desvio o olhar da mesa.

O empregado deixa o meu pedido na mesa e segue para a mesa atrás de mim.

- Bom dia. É um prazer voltar a vê-lo por cá. Quer o habitual? - Perguntou o empregado atenciosamente.

- Sim, obrigado. - E nisto sinto-o levantar-se da cadeira e ao passar por mim, olha-me...olho-o...

Pouso o livro na mesa enquanto saboreio o meu pequeno almoço e pouco depois volto a vê-lo passar por mim.

- Peço desculpa pela intromissão e atrevimento....mas por acaso não nos conhecemos? - Perguntou ele. Poderia ser a típica pergunta de engate e que tantas vezes ouvi, mas neste caso pareceu efectivamente uma curiosidade genuína e por isso ergui os meus olhos na direcção dele e olhei-o de alto abaixo, deixando-o perceber a minha atenção, terminando no olhar.

- Talvez... - Digo sem grande convicção. - Mas de onde acha que me conhece? - Perguntei.

- Se é a mesma pessoa, encontrei-a no Bar de um hotel no Porto, perto da Foz, creio. - Disse ele, mas já com algumas falhas de memória em que sítio seria.

- Talvez... - Continuei no mesmo tom desconcertante.

- Foi uma noite.... - E ia continuar mas impedi-o.

- Talvez... - Disse e ao mesmo tempo enquanto enfiava aquele fino pedaço da torrada na boca, com a outra mão, desci um pouco o vestido. Ele percebeu que eu me acariciava enquanto simplesmente desfrutava daquele pequeno almoço banal.

- Posso fazer-lhe companhia? - Perguntou-me, sem saber muito bem o que dizer. - Já não venho aqui há algum tempo e.....

- Esteja à vontade, mas não repare...não julgue...e pode ficar a ver.

Rapidamente foi buscar as suas coisas e sentou-se em frente a mim.

- É daqueles que gosta de ver? - Perguntei olhando-o nos olhos, sem medo.

- Nota-se assim tanto? - Perguntou retoricamente.

- Deveras. - Assenti.

- É daquelas que gosta de se exibir, embora o faça discretamente? - Devolveu-me.

- Sim. Não se nota?


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