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Café com sabor... - Parte VII


E por momentos olha para mim e depois para ela, meio perdido, como se o tempo passado e presente colidissem.

- Francesca!!! Já passaram uns anos desde a última vez que te vi. – Disse ele, meio atordoado ainda, por aquela confrontação inesperada.

- Rafael, porque não convidas a tua amiga a fazer-nos companhia? – Perguntei tentando aproximá-la de nós pois percebi, embora sem grandes certezas pois não o conhecia assim tão bem, que ele queria certamente estar algum tempo com ela.

Despreocupadamente ela sentou-se na nossa mesa, assumindo a pela da amiga de longa data e eu da nova namorada de Rafael. Rapidamente disse-nos que alguns meses depois do casamento separou-se e decidiu viver sozinha.

- Mas este encontro merece um brinde, não te parece Rafael? – Perguntei eu sem saber muito bem como quebrar aquele gelo inicial.

- Parece-me muito boa ideia. Vou pagar a conta e vamos até a um bar que conheço aqui mais à frente. – Disse e pouco depois já caminhávamos os três pela rua paralela ao canal, conversando alegremente até entrarmos num dos muitos bares que por ali se encontravam.

A noite parecia reservar-nos algumas surpresas, mas naquele momento, a inevitabilidade da minha ida à casa de banho era imperativa e inadiável. Uma coisa tipicamente feminina, mas assumidamente necessária. Fui, na certeza que esse compasso seria decisivo para o resto da noite…fui, sabendo que aqueles escassos momentos longe deles iria determinar o curso da noite.

Estavam sentados numa mesa ao fundo do bar, adornada com bancos altos e numa conversa solta e que se manteve quando me aproximei. Havia intimidade, mas era perceptível um distanciamento que os anos de separação tinham naturalmente cavado. Um copo ali, um brinde acolá e acabámos a dançar no meio do bar os três animadamente. E depois do fim de tarde explosivo que tínhamos tido no quarto de hotel, foi-me impossível não o provocar sempre que os nossos corpos se enrolavam numa dança mais ousada. Consciente, embora perversamente acabei por igualmente incentivar a que também Francesca dançasse com ele, comigo, voltasse a ele e me misturasse no meio, danças e contradanças de quem está despreocupadamente a passar uns dias, embora em trabalho, em Milão e contratou um acompanhante de luxo para satisfazer alguns caprichos sexuais. A tensão sexual que se instalara era quase impossível de se disfarçar e os nossos movimentos denunciavam-na a cada segundo. Era a música, era a proximidade dos corpos, eram os movimentos e era sobretudo o desejo que se instalara e permanecia.

A dada altura Francesca vai até ao bar, pedir mais uma rodada de bebidas para nós e aproximo-me propositadamente de Rafael. Não digo nada, mas olho-o maliciosamente.

- Tu não me pagaste para isto!!! – Diz-me ele ciente que havíamos cruzado alguma linha imaginária que ele próprio nem sabia que existia, muito menos eu.

- Falas de quê? – Perguntei-lhe enquanto, ao mesmo tempo, deslizava a minha mão pelo seu corpo, deparando-me com a erecção que ele não se coibiu que eu percebesse.

- Tu sabes. O que estás a fazer? – Perguntou-me de novo.

- Eu? – Voltei a perguntar com uma falsa inocência. – Eu estou apenas a divertir-me contigo e com uma ex-namorada tua. – Disse sabendo perfeitamente que o meu resumo do que estava a acontecer estava a léguas de ser a história real do que passava.

- Eu estou num impasse complicado. Tenho um serviço em mãos: tu e quero cumpri-lo, como fiz com todos os que até hoje me apareceram. Mas encontrar Francesca aqui em Milão ao fim destes anos todos não está a facilitar-me a tarefa. – Confessa-me sem rodeios.

Aproximei-me mais dele e falei-lhe ao ouvido, pois ela tinha chegado com as nossas bebidas.

- Então se estás tão zeloso das tuas obrigações, vou ajudar-te a cumprir o serviço que tens em mãos, mas ela vai junto, até porque eu já te paguei e esta noite quero….quero somente um menáge à trois. – E sem olhar para ele, peguei no copo que Francesca me entregara e dei um pequeno, mas sôfrego gole, entregando de seguida o copo a Rafael, que ficou atónito a olhar para mim, vendo-me de seguida aproximar-me dela e beijá-la nos lábios. Um beijo quente, molhado, doce e que ela devolveu com a mesma intensidade. O convite fora aceite.

- Acho que está na hora de deixarmos o bar. – Disse ele enquanto eu e Francesca nos ríamos divertidas com a súbita atrapalhação dele.

- Eu acho que sim e devíamos ir a pé até ao hotel…estas ruas são extraordinárias e a esta hora tem um encanto quase proibido. Que me dizem? – Perguntei eu num italiano invejável.

- Eu vou contigo. – Respondeu Francesca, sem rodeios, começando a caminhar para a saída, puxando-me com ela.

- E tu Rafael, não vens? – Perguntou-lhe Francesca provocadoramente. – Fazia-te bem reviver os velhos tempos, atravessar as mesmas ruas, cometer as mesmas loucuras….ou outras, quem sabe?

- Já não me chegava uma e eis que surge outra… - Disse ele verdadeiramente perdido, mas já sem medo de cruzar aquela linha imaginária que ele próprio tinha delimitado.


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